O número de adultos com obesidade acompanhados pela rede básica do Sistema Único de Saúde (SUS) aumentou 259% em dez anos. Os registros passaram de 3,09 milhões, em 2016, para 11,12 milhões em 2026, o equivalente a 36,4% dos adultos monitorados pelo sistema.
Em Minas Gerais, são 1,16 milhão de pessoas com obesidade, o que representa 34,6% dos adultos acompanhados. Os dados são do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), vinculado ao Ministério da Saúde, e apontam mudanças no perfil nutricional da população atendida pela rede pública.
Pela primeira vez, o número de adultos com obesidade superou o de pessoas com sobrepeso entre os pacientes monitorados. Em 2026, foram registrados 10,76 milhões de adultos com sobrepeso. Somadas, as duas condições atingem 21,88 milhões de pessoas, correspondendo a 71,5% do público acompanhado pelo SUS.
A proporção de pacientes com obesidade também aumentou ao longo do período analisado. Em 2016, eles representavam 25,1% dos adultos monitorados. Dez anos depois, o índice chegou a 36,4%.
Rio Grande do Sul lidera percentual de obesidade
O avanço da obesidade é observado em diferentes regiões do país. Em 24 das 27 unidades da Federação, o número de adultos acompanhados com obesidade já supera o de pessoas com peso considerado adequado. Além disso, em 18 estados, pelo menos 70% dos pacientes monitorados apresentam sobrepeso ou obesidade.
O Rio Grande do Sul registra o maior percentual de obesidade, com 42,6% dos adultos acompanhados nessa condição. O estado também lidera o índice de excesso de peso, que reúne sobrepeso e obesidade, com 75,9%.
Na sequência aparecem São Paulo, com 40,5% de adultos com obesidade, e Rio de Janeiro, com 40,1%. Em números absolutos, são 1,74 milhão de pessoas em São Paulo e 759,2 mil no Rio de Janeiro.
Além de Minas Gerais, que registra 1,16 milhão de adultos com obesidade, a Bahia contabiliza 735,3 mil pessoas, correspondentes a 31,9% dos pacientes acompanhados.
Rede pública enfrenta desafios no tratamento
O crescimento dos registros também evidencia dificuldades para garantir assistência contínua às pessoas com obesidade na rede pública. Entre os principais obstáculos estão a falta de medicamentos, a necessidade de capacitação dos profissionais de saúde e a ausência de protocolos abrangentes de atendimento.
A avaliação é do endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial da Obesidade e vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso). Segundo o especialista, o atendimento ainda ocorre de maneira fragmentada, sem uma estrutura capaz de acompanhar adequadamente todos os pacientes.
Um dos exemplos é a cirurgia bariátrica, procedimento geralmente indicado para casos mais graves. Dessa forma, uma parcela significativa das pessoas com obesidade permanece sem alternativas estruturadas de tratamento no sistema público.
O acesso à cirurgia também varia entre as regiões, com diferenças nas filas de espera. Após o procedimento, outro desafio é garantir o acompanhamento dos pacientes, incluindo o fornecimento regular de suplementos polivitamínicos.
Para Halpern, embora existam iniciativas voltadas à mudança de hábitos, ainda faltam políticas públicas organizadas em âmbito nacional para ampliar o cuidado.
A obesidade está associada a mais de 240 doenças, entre elas diferentes tipos de câncer e problemas cardiovasculares, além de aumentar os riscos à saúde e reduzir a expectativa de vida.
Prevenção também exige políticas públicas
Na avaliação do endocrinologista, o enfrentamento da obesidade precisa combinar prevenção e tratamento. Entre as medidas preventivas, ele defende ações que incentivem o consumo de alimentos naturais e reduzam a ingestão de produtos ultraprocessados.
Para quem já vive com obesidade, a prioridade deve ser a oferta de atendimento contínuo, com equipes preparadas e acompanhamento adequado às necessidades de cada paciente.
As dificuldades relacionadas à assistência foram debatidas durante o XVI Congresso Latino-Americano de Obesidade, realizado entre 28 e 31 de outubro, em Salvador.
Durante o evento, também foram apresentados resultados do estudo MAPPS II, desenvolvido pela Federação Mundial da Obesidade. A pesquisa avalia políticas públicas e estratégias de tratamento em diferentes países e identificou baixo investimento governamental no enfrentamento da doença.
Em uma escala de zero a dez, as avaliações sobre o apoio financeiro dos governos ficaram entre um e três pontos. O levantamento também apontou dificuldades na formação de equipes multidisciplinares, na integração de políticas públicas e na melhoria dos serviços de saúde.
O estudo identificou ainda o preconceito contra pessoas com excesso de peso, inclusive entre profissionais da área da saúde, como uma barreira ao tratamento.
Os resultados globais estão previstos para divulgação em 4 de março de 2027, durante o Dia Mundial da Obesidade. Um relatório específico sobre a situação brasileira também deverá ser publicado ao longo do próximo ano.