NOVEMBRO AZUL

Novembro Azul: medo e tabus ainda afastam homens dos cuidados com a saúde

Publicado em 02/11/2026 às 09:49
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A dificuldade de falar sobre sentimentos, o medo de receber um diagnóstico grave e a ideia de que procurar ajuda representa sinal de fraqueza estão entre os fatores que levam muitos homens a adiar consultas e exames. O comportamento, associado a padrões tradicionais de masculinidade, pode comprometer a identificação precoce de doenças e o início do tratamento.

A discussão ganha destaque durante o Novembro Azul, campanha de conscientização sobre a saúde masculina, especialmente a prevenção e o diagnóstico do câncer de próstata. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de 77.920 novos casos da doença por ano no Brasil entre 2026 e 2028. O tumor é o segundo mais frequente entre os homens brasileiros, atrás apenas do câncer de pele não melanoma.

A experiência do artista plástico Romero Britto, que descobriu um câncer de próstata durante um check-up de rotina, ilustra como a doença pode surgir mesmo quando não há sintomas aparentes. Ele relatou que manteve o diagnóstico em segredo durante seis anos e passou por cirurgia. Atualmente, está em remissão.

Para o onco-urologista Guilherme Canabrava, a resistência masculina em procurar atendimento está relacionada, entre outros fatores, a barreiras culturais. O receio de descobrir uma doença grave e os preconceitos associados ao câncer de próstata, principalmente em relação à sexualidade, também contribuem para o afastamento dos consultórios.

O psiquiatra Alexandre Pereira, especialista em psicoterapia, explica que essas barreiras são construídas desde a infância. Frases como “homem não chora” e “tem que aguentar” reforçam a expectativa de que os homens devem suportar dificuldades sem demonstrar sofrimento ou pedir ajuda.

Diante de um diagnóstico grave, essa cobrança pode tornar ainda mais difícil lidar com a necessidade de apoio, as mudanças na rotina e as possíveis consequências da doença para a vida pessoal e profissional. Segundo Pereira, o acolhimento de familiares, companheiras e pessoas próximas pode facilitar a busca por atendimento.

Câncer de próstata pode não apresentar sintomas no início

Um dos principais desafios relacionados à doença é que o câncer de próstata costuma evoluir sem sinais nas fases iniciais. Por isso, a ausência de sintomas não deve ser interpretada como garantia de que não há alterações na saúde.

A avaliação pode envolver exames como o PSA, realizado por meio de coleta de sangue, e o toque retal. A indicação deve ser discutida individualmente com um profissional de saúde, considerando idade, histórico familiar, fatores de risco e possíveis benefícios e limitações dos procedimentos.

O Inca não recomenda o rastreamento populacional indiscriminado de homens sem sintomas. A orientação é conversar com um médico sobre a necessidade de investigação, em vez de realizar exames automaticamente ou esperar o aparecimento de sinais da doença.

Entre as alterações que merecem avaliação médica estão dificuldade para urinar, jato urinário fraco, necessidade de levantar várias vezes durante a noite para urinar e presença de sangue na urina. Esses sintomas, entretanto, também podem estar relacionados a problemas benignos e não significam necessariamente câncer.

Quando identificado em fase inicial e ainda localizado na próstata, o tumor pode apresentar boas possibilidades de tratamento e cura. A abordagem varia conforme as características da doença e as condições de saúde do paciente. Entre as possibilidades estão vigilância ativa, cirurgia e radioterapia.

Saúde emocional também faz parte do tratamento

Além dos cuidados físicos, o diagnóstico de câncer pode provocar medo, ansiedade e insegurança sobre o futuro. A possibilidade de mudanças na rotina, os efeitos do tratamento e as preocupações com familiares podem afetar o bem-estar emocional.

De acordo com o psiquiatra Alexandre Pereira, manter atividades significativas, preservar projetos pessoais e contar com uma rede de apoio pode ajudar o paciente a enfrentar o período de tratamento. Psicoterapia, técnicas de relaxamento, meditação e atividade física adequada também podem contribuir para a qualidade de vida.

O especialista ressalta, porém, que otimismo não deve ser tratado como obrigação nem como substituto do acompanhamento médico. Exigir que uma pessoa diagnosticada com câncer esteja sempre positiva pode fazer com que ela esconda sentimentos como medo, tristeza e raiva.

O sofrimento emocional também merece atenção quando passa a comprometer o cotidiano. Ansiedade persistente, alterações no sono, isolamento, desesperança e perda de interesse por atividades habituais são sinais que justificam a busca por apoio profissional.

A proposta, segundo Pereira, não é eliminar sentimentos negativos, mas permitir que o paciente atravesse a doença sem precisar esconder o que sente ou enfrentar todas as dificuldades sozinho.

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