Corria a década de 1970. Morava no Alto da Abadia um farmacêutico de nome Durval Dias de Abreu, o popular “Durval da farmácia”, também conhecido por sua ideologia política, pois não ocultava de ninguém sua condição de comunista. O Presidente da República era Garrastazu Medici e houve nesta época a prisão do Durval. No entanto, a primeira pessoa a visitá-lo na cadeia foi o pároco da igreja de Nossa Senhora da Abadia, o padre Ângelo Polozzi. Na prisão, o padre Ângelo foi recebido e inquirido pelo delegado de plantão, que disse a ele: “padre, este homem nem sequer acredita em Deus e o senhor veio visitá-lo?” Padre Ângelo respondeu: “se este senhor não acredita na existência de Deus, eu não sei. O que sei é que este senhor atende todos na sua farmácia e, podendo pagar ou não, todos levam o medicamento, ou seja, se ele não acredita em Deus, suas atitudes são cristãs”.
Deste texto podemos inferir que:
1) não se pode julgar as ações de uma pessoa pelo verniz, aquilo que transparece, no caso pela sua ideologia política; 2) um cristão, mesmo que vá à missa todos os dias, poderá ter ou não atitudes cristãs; 3) um não cristão, mesmo sendo ateísta ou agnóstico, poderá ter atitudes cristãs, onde se encaixa o Durval como exemplo; 4) vivemos uma época em que as diversas religiões se comunicam com seus fiéis por rádio e televisão, de modo intenso, e recebemos uma enxurrada de informações, onde não sabemos o que é apenas discurso ou o que é verdade; 5) na dúvida, procuro me lembrar da máxima “não julgue as pessoas pelas palavras proferidas, mas sim pelo seu comportamento (atitudes) na sociedade”, onde se enquadram a vida e o exemplo de Durval.
Post scriptum: a análise do comportamento é importante, pois a crise moral é a grande matriarca das demais crises que o Brasil atravessa. Um ditado chinês nos ensina que “o exemplo vem de cima”, obrigando-nos a concluir que não pode haver diferença entre as palavras e as ações, ou seja, entre o discurso e o comportamento. No entanto, o binômio TSE/STF tem apresentado um discurso agregador, aglutinador de pessoas e ideias, apregoando a obediência aos princípios democráticos, mas... o comportamento (atitudes) tem sido desagregador e desaglutinador de pessoas e de ideias, devastador e antidemocrático.
Enfim, o binômio tem um discurso que está a 180 graus do seu comportamento, principalmente pelas suas ações contra a liberdade, pois:
1- “não há povos evoluídos sem liberdade”; 2- “o desenvolvimento de uma sociedade não é medido apenas pela riqueza financeira e distribuição de renda, mas sim pelo aumento da liberdade”; 3- “se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir”. George Orwell.
Nilson de Camargos Roso
Doutor em Anestesiologia, professor aposentado pela UFTM
n.roso@me.com