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E se você voltasse 70 milhões de anos e caísse em Uberaba?

No lugar de ruas e prédios, região tinha rios, clima seco, predadores e gigantes como o Uberabatitan

Juliana Corrêa
Publicado em 20/08/2026 às 16:14Atualizado em 20/08/2026 às 16:22
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A luta pela sobrevivência marcava o território de Uberaba há 70 milhões de anos (Foto/Rodolfo Nogueira)

A luta pela sobrevivência marcava o território de Uberaba há 70 milhões de anos (Foto/Rodolfo Nogueira)

A luta pela sobrevivência marcava o território de Uberaba há 70 milhões de anos (Foto/Rodolfo Nogueira)

Imagine que você voltou 70 milhões de anos no tempo e desembarcou exatamente onde hoje está Uberaba. Dificilmente você reconheceria a paisagem. Não existiriam ruas, prédios, plantações ou qualquer sinal da cidade. No lugar do asfalto, um cenário dominado por gigantes. O relógio geológico marcava os últimos milhões de anos da Era dos Dinossauros, período conhecido como Cretáceo Superior, e a região abrigava uma das faunas pré-históricas mais impressionantes já registradas no Brasil. Hoje, graças a décadas de pesquisas realizadas em Peirópolis e em outros pontos do município, cientistas conseguem reconstruir com detalhes como era esse mundo desaparecido. 

A Uberaba daquele tempo integrava uma extensa depressão sedimentar conhecida pelos geólogos como Bacia Bauru. Segundo o paleontólogo Luiz Carlos Borges Ribeiro, o ambiente era bastante diferente da imagem de florestas exuberantes normalmente associada aos dinossauros. O clima era quente e seco, semelhante ao encontrado atualmente em partes do interior do Nordeste brasileiro. Longos períodos de estiagem eram interrompidos por chuvas rápidas e torrenciais, capazes de transformar completamente a paisagem. 

Apesar da aridez, a água era protagonista. A região era cortada por cursos d'água, alguns permanentes e outros temporários, que garantiam a sobrevivência da fauna. A climatologista Wanda Prata explica que a água se concentrava em uma grande depressão da região, formando um ambiente que atraía os grandes animais. Independentemente da configuração exata dessa paisagem, os pesquisadores concordam que a presença constante de água era essencial para manter a vida naquele ambiente extremamente quente. 

A região de Uberaba era árida, porém, cortada por cursos d’água, o que atraía animais (Foto/Rodolfo Nogueira)

A região de Uberaba era árida, porém, cortada por cursos d’água, o que atraía animais (Foto/Rodolfo Nogueira)

Nas margens desses rios e áreas úmidas, cresciam samambaias, enquanto cicas e coníferas dominavam boa parte da vegetação. As coníferas são parentes das atuais araucárias e pinheiros. Já as cicas, plantas de tronco grosso e folhas longas, eram muito comuns durante a época dos dinossauros e continuam existindo até hoje. Esse mosaico de vegetação oferecia alimento aos grandes herbívoros e abrigo para inúmeros outros animais que dividiam espaço na paisagem pré-histórica. 

Entre todos eles, nenhum chama mais atenção do que o Uberabatitan ribeiroi. Com pescoço e cauda longos e corpo que podia alcançar dezenas de toneladas, o gigante herbívoro tornou-se um dos maiores símbolos da paleontologia brasileira. Descoberto em Uberaba e descrito cientificamente a partir de fósseis encontrados na região, ele percorreu esse ambiente em busca de alimento e água, tornando-se um dos últimos grandes saurópodes a viver na Terra antes da extinção dos dinossauros. 

Reconstrução do Uberabatitan, maior espécie de dinossauro encontrada no Brasil (Foto/Rodolfo Nogeuira)

Reconstrução do Uberabatitan, maior espécie de dinossauro encontrada no Brasil (Foto/Rodolfo Nogeuira)

Mas o Uberabatitan estava longe de ser o único gigante da região. Caminhando um pouco mais pela antiga Uberaba, você também encontraria outros titanossauros, como Baurutitan britoi e Caieira allocaudata. Assim como o famoso "Titã de Uberaba", esses animais eram grandes herbívoros de pescoço e cauda longos, adaptados para percorrer a paisagem em busca de vegetação. Embora compartilhassem o mesmo ambiente e pertencessem ao mesmo grande grupo de dinossauros, cada espécie apresentava características próprias. Eram verdadeiras comunidades de titãs que circulavam entre os antigos cursos d'água do Cretáceo Superior, em uma paisagem que hoje está registrada nas rochas. 

Entre os predadores, os destaques ficam para Ypupiara lopai, considerado o primeiro raptor brasileiro, com cerca de um metro a mais de comprimento do que o famoso velociraptor, podendo ter o dobro do peso, e o Abelisaurus comahuensis, que poderia chegar a 3 metros de altura e pesar entre 1,5 e 3 toneladas 

Entre os predadores, os destaques ficam para Ypupiara lopai, considerado o primeiro raptor brasileiro descrito pela ciência, e os abelissauros, dinossauros carnívoros que também faziam parte da fauna do Cretáceo Superior. Parente do famoso Velociraptor da Ásia, o Ypupiara era ainda maior que seu conhecido "primo" cinematográfico: podia chegar a cerca de três metros de comprimento e pesar até o dobro do pequeno predador que ficou famoso nos filmes. Já os abelissauros representavam um grupo de caçadores de maior porte, com crânios robustos e mandíbulas fortes. 

Abelissauro, um dos mais temidos predadores da região (Foto/Rodolfo Nogueira)

Abelissauro, um dos mais temidos predadores da região (Foto/Rodolfo Nogueira)

Mas a vida na antiga Uberaba não era formada apenas por dinossauros. A fauna também reunia crocodilomorfos muito diferentes dos jacarés atuais, como Peirosaurus tormini, Itasuchus jesuinoi e Uberabasuchus terrificus, além de tartarugas, lagartos e anfíbios que ocupavam os ambientes próximos à água. Nos céus, um outro réptil chamava atenção: o Galgadraco zephyrius, um pterossauro que sobrevoava a região em busca de alimento. Essa diversidade revela um ecossistema complexo, onde grandes herbívoros, predadores terrestres e animais aquáticos compartilhavam a paisagem quente e seca do Cretáceo Superior. 

Cena representada por paleoartista mostra Ypupiara lopai, espécie de raptor, instantes após atacar ninho de saurópode (Foto/Rodolfo Nogueira)

Cena representada por paleoartista mostra Ypupiara lopai, espécie de raptor, instantes após atacar ninho de saurópode (Foto/Rodolfo Nogueira)

Os fósseis chegaram até os dias atuais graças a uma combinação rara de fatores naturais. Depois que os animais morriam, seus esqueletos permaneciam expostos ao forte calor. Quando finalmente vinham as chuvas torrenciais, os ossos eram transportados pelos cursos d'água e rapidamente soterrados por areia, argila e cascalho. Ao longo de milhões de anos, minerais presentes na água substituíram lentamente a matéria orgânica dos ossos, transformando-os em fósseis preservados nas rochas. 

Milhões de anos depois, a própria natureza fez o caminho inverso. A erosão removeu parte dessas camadas de rocha e voltou a expor os fósseis na superfície, permitindo que fossem encontrados por pesquisadores. É graças a esse processo que hoje é possível reconstruir, com base em evidências científicas, um capítulo da história de Uberaba muito anterior ao surgimento dos primeiros seres humanos! 

E há uma forma curiosa de encontrar um pedacinho desse passado sem precisar visitar um sítio paleontológico. Basta observar alguns jardins e praças da cidade. As cicas, frequentemente utilizadas no paisagismo, pertencem a um grupo de plantas que já existia quando os dinossauros caminhavam por Uberaba. Consideradas "fósseis vivos", elas atravessaram milhões de anos com poucas mudanças. Talvez sejam as testemunhas mais discretas de um tempo em que o maior habitante da cidade não era um ser humano, mas um gigante de dezenas de toneladas que caminhava lentamente pelas margens dos antigos cursos d'água. 

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