A retenção de macas das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em Uberaba voltou a ser registrada e, desta vez, motivou boletim de ocorrência por funcionária da unidade do Mirante. Segundo a Sociedade Educacional Uberabense (SEU), responsável pela administração das unidades, foram 68 casos entre setembro e dezembro de 2025, além de outros 16 registros em 2026. O cenário reacendeu o debate sobre os impactos da superlotação no Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM), que atribui a situação a picos de atendimento no Pronto-Socorro.
Mais uma vez procurado pelo Jornal da Manhã, o HC-UFTM reconheceu os episódios de retenção, mas afirmou que a prática ocorre de forma excepcional, em períodos de superlotação. Segundo o hospital, nos dias 8 e 20 de janeiro de 2026, o Pronto-Socorro Adulto chegou a atender cerca de 50 pacientes em um espaço pactuado para, no máximo, 22.
A instituição informou que, durante esses períodos, as interlocuções com a rede são constantes até a melhora do cenário e que as macas são devolvidas assim que possível, desde que não haja prejuízo à assistência dos pacientes internados. Ainda conforme o hospital, no último mês foi designado um colaborador específico para garantir o cumprimento da Norma Operacional de devolução de macas, vigente desde abril de 2024.
O HC-UFTM destacou ainda que participa do projeto Lean nas Emergências, do PROADI-SUS, e que a reestruturação interna dos fluxos contribuiu para um aumento de 31,5% nas internações entre 2023 e 2025. “Como deliberações, ficou estabelecida a construção de um Plano de Ação com o objetivo de sistematizar a regulação e transferência dos pacientes do HC-UFTM, uma vez que foi evidenciado que o número insuficiente de macas não é a causa do problema. Ademais, foi estabelecido um cronograma de reuniões para o semestre para a implantação, monitoramento e avaliação do Plano de Ação”, explicou.
Em relação à estrutura física, o hospital informou que, além das 22 camas pactuadas no Pronto-Socorro Adulto, dispõe de 14 macas adicionais, permitindo atendimento de até 36 pacientes. Além disso, entre julho de 2023 e dezembro de 2025, foram adquiridas mais 41 macas. Acima desse quantitativo, segundo a gestão, não há capacidade física nem recursos humanos suficientes para garantir atendimento seguro e condições adequadas de trabalho.
Sobre a ampliação da capacidade assistencial, o hospital informou que mantém tratativas formais com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) para reorganização do fluxo, mas alertou que, enquanto não houver mudanças no atendimento de “vaga zero” — modalidade para a qual é o único prestador habilitado na região —, a superlotação tende a se manter. “O HC-UFTM tem sido contemplado com investimentos progressivos da EBSERH, aplicados em obras, modernização e qualificação dos serviços prestados. Mas, no momento, não é prioridade a discussão de ampliação de oferta de atendimento de Urgência e Emergência junto ao órgão regulador local, uma vez que os esforços estão direcionados para aprimorar e cumprir os normativos atuais para os serviços já ofertados”, destacou.
SEU aponta impacto direto nas UPAs
De acordo com a SEU, responsável pela administração das UPAs, a situação é de conhecimento da SMS, com quem mantém diálogo permanente na tentativa de construir soluções para reduzir os impactos sobre a operação das unidades e o transporte de pacientes. Já em relação ao HC-UFTM, a entidade relatou que já houve tentativas de alinhamento direto, incluindo reunião presencial, visita técnica para compreensão do fluxo do pronto atendimento e a criação de um grupo de WhatsApp entre as equipes. Ainda assim, a avaliação é de que as medidas tiveram efeito limitado, já que, conforme informado pelo próprio hospital, a principal causa da retenção é a superlotação do Pronto-Socorro.
Ainda conforme a SEU, os episódios de retenção passaram a ser registrados formalmente a partir de setembro de 2025. Até dezembro do mesmo ano, foram contabilizadas 68 retenções de macas provenientes das UPAs. Já em 2026, até o momento, 16 novas ocorrências foram registradas. “Esses números estão sendo consolidados a partir dos registros operacionais das equipes de transporte”, informou a entidade, ao destacar que a indisponibilidade das macas compromete diretamente o fluxo de remoções e o atendimento aos pacientes nas unidades de pronto atendimento.
A situação também levanta questionamentos sobre o modelo de financiamento e a responsabilidade regional do hospital que, além de Uberaba, atende 27 municípios da macrorregião Triângulo Sul como referência em alta complexidade 100% pelo SUS. O HC-UFTM reforçou que a garantia de assistência à população é atribuição da SMS, gestora do SUS na região, e que há discussões em andamento sobre o perfil assistencial dos pacientes e possíveis impactos no financiamento dos prestadores.
No início do mês, reportagem do JM mostrou que quase 50 pacientes tiveram atendimentos prejudicados pela falta de macas para remoção entre UPAs e hospitais, especialmente o HC-UFTM, que operava com ocupação superior a 200% no Pronto-Socorro Adulto. À época, a taxa informada era de ocupação de 159% nos leitos da rede. Com os novos registros, o Jornal da Manhã voltou a acionar a Secretaria de Saúde sobre medidas para enfrentar o problema, como possível ampliação de leitos SUS, pactuação financeira com os municípios atendidos, solicitação de recursos aos governos estadual e federal e alternativas paliativas. Entretanto, até o fechamento desta edição, não houve resposta. O espaço segue aberto a manifestações.