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Bets impulsionam endividamento mais do que juros e crédito; especialista vê danos à saúde pública

Estudo aponta que impacto das apostas esportivas é mais que o dobro da soma de juros e expansão do crédito; renda e consumo são comprometidos

Karlon Aredes/O Tempo
Publicado em 27/03/2026 às 16:45
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Propaganda em todos os lados, patrocínios de programas de TV e de eventos diversos, estampa no uniforme do time do coração. Os sites de apostas, ou bets, proliferam no Brasil e atraem apostadores de todas as idades, classes sociais, gêneros, costumes etc. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), as empresas do setor registraram receita bruta de R$ 37 bilhões em 2025 — tratando-se apenas das que recolhem tributos. Estima-se que cerca de 25 milhões de brasileiros apostam em bets. Por falta de levantamentos oficiais, essa contingente pode estar subestimado. 

Esse mercado bilionário tem um efeito colateral gigantesco: o endividamento da população brasileira. Um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (IBEVAR), em parceria com a FIA Business School, sobre o avanço do endividamento das famílias brasileiras revela uma mudança estrutural no perfil das pressões financeiras no país: as apostas esportivas online, popularizadas a partir de 2019, passaram a exercer um impacto superior ao dos juros e da oferta de crédito na aceleração da dívida doméstica.

Corrobora o levantamento uma recente pesquisa da Serasa: 44% dos endividados no Brasil já apostaram com a esperança de quitar suas dívidas, o que acabou gerando ainda mais débitos e cortes no orçamento doméstico.

A pesquisa da IBEVAR/FIA analisou o período entre dezembro de 2011 e dezembro de 2025, com base em dados do Banco Central, IPEA e métricas de interesse capturadas por processamento de linguagem natural em redes sociais. O coeficiente de dívidas associado às apostas (0,2255 para cada endividado) supera com ampla margem o impacto do crédito sobre a renda (0,0440) e dos juros ao consumidor (0,0709). Mesmo somados, os efeitos de crédito e juros não alcançam o peso atribuído à expansão das apostas. Segundo o estudo, o impacto das bets é quase o dobro da soma dos dois fatores tradicionais — podendo ser ainda maior, já que parte do efeito dos juros já está embutido na dinâmica do crédito.

Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School: “Ao longo do período analisado, observou-se uma leve tendência de desaceleração no crescimento do endividamento. No entanto, após a entrada das apostas esportivas — legalizadas em 2018 e amplamente difundidas a partir de 2019, antes da regulamentação definitiva em 2023 — a dinâmica da dívida ganha novo impulso”.

Segundo a entidade, com base em pesquisas mundiais, o volume apostado reduz a poupança e faz cair os investimentos financeiros. Em média, cada US$ 1 gasto em apostas reduziu quase US$ 1 em investimentos no mercado financeiro.

Os efeitos negativos, na avaliação de Felisoni, concentram-se sobretudo em famílias financeiramente vulneráveis: aumento do endividamento no cartão de crédito, redução do crédito disponível, menor pagamento de faturas e maior uso de cheque especial. O padrão sugere um deslocamento de recursos de atividades produtivas e poupança de longo prazo para apostas de retorno esperado negativo.

"A conclusão do estudo é clara: o crescimento acelerado do mercado de bets não é apenas uma questão regulatória ou tributária — trata-se de um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo”, comenta Felisoni.

Redução do poder de compra e problema de saúde pública

Segundo a Serasa, em levantamento divulgado na última quarta-feira (25/03), referente a fevereiro de 2026, o país alcança 81,7 milhões de pessoas em situação de inadimplência. Ao todo, são mais de 332 milhões de dívidas — volume 43% superior ao registrado em 2016, quando não havia bets no país. Como consequência, a dívida média por consumidor avançou 12,2%, passando de R$ 5.880,02 para R$ 6.598,13, considerando valores corrigidos pela inflação entre os anos. Além disso, 44% dos endividados em 2026 estavam também inadimplentes há dez anos.

Especialista em educação financeira e CEO da Plano Fintech, Ricardo Hiraki aponta que o Brasil vive um momento preocupante no que diz respeito ao endividamento das famílias. “Dados recentes mostram que o nível de dívidas atingiu recordes históricos, acompanhado por uma nova alta da inadimplência. Isso significa que cada vez mais famílias estão comprometendo uma parcela relevante da renda com obrigações financeiras. Como educador financeiro, é impossível ignorar que esse cenário não é apenas resultado de crédito caro ou inflação, mas também de mudanças no comportamento financeiro da população".

E ele pontua: “Um dos fatores que vêm ganhando destaque nesse contexto é o crescimento do vício em apostas online, as chamadas bets. Já há evidências de que milhões de brasileiros estão envolvidos nesse tipo de atividade, a ponto de o tema ser tratado como um problema de saúde pública. O que antes parecia entretenimento pontual passou a ocupar espaço recorrente no orçamento familiar, muitas vezes sem controle, planejamento ou consciência dos riscos envolvidos”.

Para o educador financeiro, há um impacto significativo no poder de consumo das famílias, principalmente as de baixa renda. Há casos, segundo ele, em que gastos com apostas já estão competindo — e até substituindo — despesas essenciais, como alimentação, contas de luz, água e cuidados com a saúde. “Quando uma família direciona parte relevante da sua renda para apostas, ela não apenas reduz sua capacidade de consumo no presente, mas também compromete sua estabilidade futura, criando um ciclo de endividamento difícil de romper”, completa.

Outro ponto crítico na avaliação de Ricardo Hiraki é a forma como as bets têm sido percebidas. Muitos brasileiros passaram a enxergar apostas como uma forma de investimento, o que é um erro conceitual grave, alerta o especialista. “Investimento pressupõe estratégia, gestão de risco e expectativa de retorno no longo prazo. Apostas, por outro lado, são baseadas em probabilidade e, estruturalmente, favorecem a casa. Essa distorção é agravada pela atuação de influenciadores, que muitas vezes promovem ganhos fáceis e irreais, sendo remunerados pelas plataformas — enquanto milhares de pessoas, especialmente de menor renda, acumulam perdas significativas”, conclui.

Fonte: O Tempo.

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