Charles Lieber atua em Shenzhen em projeto de interface cérebro-computador com apoio estatal e acesso a infraestrutura avançada de pesquisa

Charles Lieber, cientista americano, sofreu condenação após mentir para os EUA sobre pagamentos da China (Foto/Divulgação/Peking University)
O cientista norte-americano Charles Lieber, condenado nos Estados Unidos por omitir vínculos financeiros com programas de pesquisa da China, reestruturou sua atuação acadêmica em um novo laboratório em Shenzhen, no sul do país asiático, onde trabalha no desenvolvimento de tecnologias de interface entre cérebro e computador.
Segundo informações apuradas, Lieber lidera o instituto i-BRAIN (Instituto de Pesquisa Cerebral, Interfaces Avançadas e Neurotecnologias), ligado a uma instituição chinesa de pesquisa financiada pelo governo local. O projeto é voltado ao avanço de tecnologias capazes de conectar sistemas eletrônicos diretamente ao cérebro humano, área considerada estratégica por autoridades chinesas.
A tecnologia estudada tem aplicações potenciais no tratamento de doenças neurológicas e na reabilitação de pacientes com paralisia, mas também desperta interesse militar devido ao seu uso em pesquisas sobre ampliação de capacidades cognitivas.
No novo centro de pesquisa, Lieber teria acesso a equipamentos de nanofabricação e sistemas avançados de litografia usados na produção de chips, além de infraestrutura dedicada a estudos com primatas — com cerca de 2 mil gaiolas disponíveis para experimentos, segundo registros do laboratório.
O complexo integra um ecossistema científico maior em Shenzhen, financiado pelo governo local e voltado ao desenvolvimento de tecnologias de ponta, incluindo inteligência artificial e semicondutores. O orçamento da instituição parceira do projeto teria crescido significativamente nos últimos anos, impulsionado por investimentos estatais.
Nos Estados Unidos, Lieber foi condenado em 2021 por prestar informações falsas a autoridades federais sobre sua participação em programas de recrutamento de talentos estrangeiros da China, além de irregularidades fiscais. Ele recebeu pena de prisão domiciliar, multa e restrições judiciais.
Mesmo após a condenação, registros indicam que o pesquisador voltou a viajar para a China com autorização judicial e, posteriormente, passou a integrar oficialmente a estrutura de pesquisa em Shenzhen.
O caso reacende o debate internacional sobre transferência de tecnologia sensível e disputa científica entre Estados Unidos e China, especialmente em áreas consideradas estratégicas como neurotecnologia e semicondutores.
Autoridades chinesas não detalharam o papel específico do cientista no projeto, mas o país tem classificado o desenvolvimento de interfaces cérebro-computador como prioridade nacional em seus planos de inovação tecnológica.