
O jato em que Daniel Vorcaro embarcaria, pouco antes de ser preso: avião é um dos três em nome da empresa do banqueiro (Foto/Divulgação/Polícia Federal)
Daniel Vorcaro e familiares fizeram uma operação financeira às vésperas da liquidação do banco e em meio ao avanço das apurações da Polícia Federal (PF) e do Banco Central (BC) para cobrir um rombo de R$ 776,9 milhões. O valor foi repassado a empresa e fundos ligados à família do banqueiro.
Investigadores suspeitam que os recursos foram repassados pelo Banco Master para uso particular por meio da compra de mansões e jatinhos. O negócio visava dificultar o rastreio e ocultar o patrimônio da família do banqueiro.
A manobra foi revelada em reportagem publicada pelo “O Globo” nesta terça-feira (5/5), com base em documentos do Master e da liquidante do banco, que teve a operação interrompida pelo BC em novembro de 2025.
Henrique Vorcaro, pai do dono do Master, e Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, tiveram seus bens protestados em ação movida mês passado pela liquidante do Master, responsável por vender os bens e pagar os credores até a liquidação completa da instituição.
A suspeita é que, por meio dessa operação financeira, iniciada em 2022, eles desviaram recursos milionários do cofre do Master para financiar, entre outros bens, uma mansão de US$ 35 milhões na Flórida, nos Estados Unidos.
A defesa de Henrique e Natália negou irregularidades e disse que os negócios citados na ação foram lucrativos para o Master. “Não há qualquer ato ilícito atribuível à família, que sequer tem conhecimento destes fundos mencionados, os quais têm tomado ciência apenas após tais inquinações”, afirmam os advogados em nota.
Na ação, os advogados da liquidante pediram o protesto de bens desses dois familiares do dono do Master, ou seja, que haja um aviso sobre a disputa judicial se houver a intenção de vendê-los. O objetivo é evitar o esvaziamento de patrimônio e proteger eventuais ressarcimentos de credores do Master.
O suposto desvio teria se iniciado após um fundo de investimento ligado ao Master, chamado City, adquirir de empresas da família Vorcaro títulos de mercado chamados de “recebíveis”, de acordo com “O Globo”.
Por meio desse mecanismo, uma empresa que tem dinheiro a receber de vários clientes no futuro pode “empacotar” essas dívidas em contratos e vendê-los ao mercado, antecipando o dinheiro à vista.
Documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que, em 2022, o fundo City repassou R$ 419,9 milhões nas contas dessas empresas familiares, em troca de uma promessa de receber R$ 798 milhões nos anos seguintes.
A liquidante do Master aponta fortes indícios de que esses recebíveis eram “podres”, isto é, não tinham lastro real ou chance de serem pagos pelos clientes originais na outra ponta, ainda segundo a apuração de “O Globo”.
Como o dinheiro esperado não entrava, a administradora do fundo passou a registrar perdas progressivas nos meses seguintes, seguindo as regras da CVM.
“Os indícios apresentados corroboram a tese de que os Requeridos, familiares próximos do ex-controlador, possam ter atuado de forma consorciada para a canalização, desvio e ocultação de recursos bilionários”, afirma a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que acatou uma liminar pelo protesto dos bens da família.
O rombo começou a aparecer publicamente no início de 2025, quando o fundo City admitiu ao mercado uma perda de 61,25% de seu patrimônio apenas no mês de março. No balanço de junho, o saldo negativo por calotes (chamada de “provisão para devedores duvidosos”) atingiu a marca de R$ 714,9 milhões. Procurado, o City não comentou.
A suspeita levantada na ação é que, como o fundo estava assumindo um prejuízo bilionário para enriquecer diretamente empresas da família do ex-controlador, uma nova operação teria sido armada.
Em 3 de julho de 2025, meses antes da liquidação do Master, o fundo City assinou um contrato vendendo todo esse “pacote” de recebíveis da família Vorcaro por R$ 776,9 milhões para uma empresa chamada Navarra S.A..
A liquidante identificou, entretanto, que a Navarra não era uma empresa do mercado interessada nos recebíveis, mas que tinha, como beneficiário final, o próprio Vorcaro, por meio de dois fundos, o Lunar e o Astralo 95 – apontado nas investigações como um dos “cofres” usados pelo banqueiro.
Na prática, a suspeita é que a operação teria servido para mascarar a dívida da família na contabilidade do Master e do fundo City, vinculado ao banco.
Semanas depois de assinar esse contrato de venda, em 24 de julho de 2025, a administradora do fundo City emitiu um comunicado ao mercado admitindo a irrecuperabilidade dos ativos, com uma queda de 99,98% no valor das cotas. Na prática, o informe indicou que o valor do fundo foi reduzido a quase zero: se uma pessoa tivesse investido R$ 100 no dia anterior, veria seu investimento despencar para apenas R$ 0,02.
A liquidante do Master identificou essa manobra e obteve o protesto dos bens da família Vorcaro, argumentando que a operação com a Navarra não teve substância econômica, servindo apenas para mascarar o fato de que os créditos cedidos originalmente pela família ao fundo City eram de difícil recuperação e jamais seriam quitados.
“Identifica-se, de igual modo, fortes indícios de que os recursos supostamente desviados das Requerentes serviram ao financiamento de uma vida de alto luxo, materializada, entre outros, na aquisição de uma propriedade cinematográfica na cidade de Windermere, na Flórida (EUA), avaliada no montante recorde de US$ 35 milhões, de titularidade da empresa Sozo Real Estate Inc., cujos cargos de direção são ocupados pelos ora Requeridos”, apontou a decisão.
As investigações do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Polícia Federal apontam que o Astralo financiou outros bens, como um imóvel de R$ 36 milhões em Brasília, um jatinho de R$ 538 milhões e aportes milionários na SAF do Atlético Mineiro.
As apurações da PF revelam ainda que parte dos recursos do esquema bancou pagamentos de propina a auditores do BC para fazer vista grossa às operações, além de financiar “A Turma”, milícia privada usada por Vorcaro para ameaçar jornalistas que tentassem expor as fraudes.
Fonte: O Tempo