Os números do mercado de trabalho têm sido quase tão dramáticos quanto os de saúde nos Estados Unidos. Segundo a revista Veja, o país tem 640 mil infectados e 31 mil mortos. Em contrapartida, nos últimos 28 dias 22 milhões de pessoas se registraram para receber o auxílio-desemprego. Ou seja, foram demitidas. Mas o número de desempregados pode aumentar ainda mais, uma vez que o sistema de processamento de dados do Departamento do Trabalho não foi projetado para um solavanco tão brusco da economia e os pedidos estão sendo analisados com lentidão.
22 milhões de desempregados é o maior contingente de americanos desocupados desde a traumática Grande Depressão nos anos 1930, que arrastou para o buraco onze anos consecutivos de aumento de vagas, fazendo elevar o índice de desemprego no país. Da noite para o dia. “Estamos saindo do mais baixo desemprego em meio século para um patamar excepcionalmente elevado em velocidade alarmante”, constatou Jerome Powell, presidente do Fed, o banco central americano, em conferência a investidores.
O índice de desemprego nos Estados Unidos estava na faixa de 3,5%. Agora se aproxima dos 15%, tragando o país para outra grande crise. Essa mesma crise coloca de joelhos quase todos os países mundo afora. A pequena diferença entre os Estados Unidos para vários outros é que por lá, o liberalismo econômico faz com que o Estado tenha a presença mais discreta possível na vida da população. Assim, demitir no país é um ato simples e indolor para quem demite, o que impulsiona a elevação do número de desempregados.
Ao contrário, governos de países da Europa têm se esforçado para evitar dispensas. Reino Unido e França vão pagar 80% do salário nas empresas com problema de caixa. Holanda e Portugal optaram por um programa semelhante. Itália e Grécia foram ainda mais longe e proibiram cortes no período de emergência, uma providência impensável no sistema americano.
Nos Estados Unidos, cerca de 80% dos postos de trabalho se concentram no setor de serviços, o mais sensível ao vai e vem da economia. Com ele, a renda de três quartos dos empregados ganha por hora trabalhada. Se o movimento cai, a queda arrasta também a jornada de trabalho e, consequentemente, o salário no fim do mês.
Outro setor sensível às intempéries da economia é o varejo, um dos motores do fluxo de dinheiro no país, e registrou contração de 8,7% em março, a maior da história. A indústria do turismo experimenta situação especialmente grave, com a ameaça a pelo menos 15 milhões de empregos.
Em Las Vegas, capital dos cassinos, e Orlando, sede dos parques temáticos da Disney e da Universal, uma em cada três vagas pode evaporar. Neste que seria em épocas normais o início da alta temporada, a ocupação da rede hoteleira desabou 70% em comparação com o mesmo período de 2019. “A combinação de epidemia com crise social não acontecia desde a gripe espanhola, há 100 anos. Ninguém sabe prever quanto tempo levará até a recuperação”, diz David Card, da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Como consequência do galopante desemprego, o país mais rico do mundo tem visto filas intermináveis se formando nos postos Food Stamps, um resquício da Grande Depressão que supre os mais pobres dos pobres com alimentos básicos. Despreparados para uma também galopante demanda, o órgão tem feito apelos por doações, estratégia que até então tem dado certo. Jeff Bezos, o bilionário dono da Amazon, contribuiu com 100 milhões de dólares.
A queda no padrão de vida dos americanos também da noite para o dia traz uma séria reflexão sobre o questionamento sobre a falta de proteção social nos Estados Unidos. Para piorar a situação, o país não possui rede de saúde pública universal. Assim, os planos de saúde normalmente integram os pacotes salariais ofertados pelo empregador. Com as demissões em massa, calcula-se que 12 milhões de americanos perderão a cobertura médica em plena pandemia.
O liberalismo econômico é uma faca de dois gumes e mostra também a outra face da moeda. Com a mesma facilidade com que são demitidos, os trabalhadores também são admitidos. Contratar é um processo simples e indolor, tal qual demitir. Com 328 milhões de habitantes e PIB de 20 trilhões de dólares, os Estados Unidos respondem por um quarto do consumo das famílias do planeta e, apesar do nariz torcido de Donald Trump, mantêm vinte acordos de livre-comércio com o resto do mundo, movimentando uma economia dinâmica vista como o principal antídoto para a crise atual. “É o país com melhores chances de combater uma crise dessas proporções”, afirma Nicholas Bloom, economista da Universidade de Stanford. Os próximos meses - e os próximos índices de emprego - dirão se as oportunidades foram bem aproveitadas.
*Com informações da revista Veja.