A gasolina sem etanol pode passar a ser oferecida nos postos brasileiros caso propostas em tramitação no Congresso Nacional avancem. As iniciativas discutem a criação de alternativas à atual gasolina E32 para veículos que não foram projetados para funcionar com concentrações elevadas de etanol.
A mudança, no entanto, ainda não está valendo. Atualmente, a gasolina comum e a aditivada comercializadas no Brasil seguem com 32% de etanol anidro na composição.
As propostas não pretendem substituir a gasolina E32. A ideia é criar uma segunda ou até terceira opção para veículos que possam apresentar incompatibilidade com concentrações maiores de etanol, como carros antigos, modelos de coleção, alguns veículos importados, motos de baixa cilindrada, geradores, máquinas agrícolas, embarcações e automóveis de competição.
E0, E10 e E32
A principal diferença entre as opções está na quantidade de etanol misturada à gasolina:
Caso alguma das propostas seja aprovada, a gasolina E32 continuaria disponível para os veículos compatíveis. A nova opção seria destinada a aplicações específicas.
Uma das propostas mais abrangentes é o Projeto de Lei 4.783/2026, apresentado na Câmara dos Deputados pelo deputado Fernando Máximo (PL-RO).
O texto prevê a obrigatoriedade de oferta de gasolina sem etanol anidro para determinados veículos, incluindo automóveis de coleção e modelos fabricados até 2003 que não sejam flex, além de veículos que não tenham sido projetados para utilizar biocombustíveis.
A justificativa é que veículos mais antigos podem ter componentes como carburadores, tanques metálicos, mangueiras, juntas e sistemas de alimentação desenvolvidos para combustíveis com características diferentes das atuais.
O projeto ainda está em tramitação na Câmara e não produz efeitos sobre a venda de combustíveis nos postos.
No Senado, a Sugestão Legislativa 30/2026 propõe a possibilidade de comercialização de gasolina E0 e E10 em todo o país.
A iniciativa surgiu a partir de uma ideia apresentada por cidadãos no portal e-Cidadania e recebeu cerca de 24 mil apoios, passando a tramitar como proposta legislativa.
O texto está em análise na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. A proposta prevê que a gasolina com menor concentração de etanol seja uma alternativa para veículos cujo fabricante recomende esse tipo de combustível.
Outra proposta é o Projeto de Lei Complementar 249/2026, apresentado pelo deputado Messias Donato (União-ES).
O texto prevê que os estados e o Distrito Federal possam autorizar a comercialização de gasolina E0 e E10.
Nesse caso, porém, a proposta não obrigaria os postos a vender os combustíveis. A disponibilidade dependeria da adesão dos revendedores, o que poderia fazer com que a gasolina com menor concentração de etanol não estivesse disponível em todas as cidades.
A mistura obrigatória de etanol na gasolina passou de 30% para 32% em 1º de agosto de 2026, em caráter excepcional e temporário.
A mudança provocou discussões principalmente entre proprietários de veículos antigos e equipamentos que podem permanecer longos períodos sem utilização.
O etanol possui características diferentes da gasolina e pode absorver umidade, o que, em determinadas condições, pode contribuir para corrosão e problemas em sistemas antigos. Entre os componentes que podem exigir maior atenção estão tanques metálicos, carburadores, bombas, mangueiras, juntas e vedações.
Isso não significa que todo veículo antigo terá problemas com a gasolina E32. A possibilidade de desgaste ou falha depende das características do veículo, do estado de conservação e das condições de armazenamento e utilização.
Apesar de ser chamada de “gasolina pura”, a versão E0 não necessariamente seria mais barata.
Como não teria etanol em sua composição, a E0 utilizaria uma quantidade maior de gasolina A. Além disso, a comercialização de diferentes tipos de combustível exigiria estrutura específica nos postos, com separação de tanques, bombas, transporte e armazenamento.
Esses fatores podem aumentar os custos de distribuição e comercialização.
A proporção de etanol na gasolina varia bastante entre os países.
Nos Estados Unidos, a gasolina E10 é predominante, enquanto também existem opções como E15 e E85 para aplicações específicas e veículos compatíveis.
Na União Europeia, as formulações E5 e E10 são comuns. Na Argentina, a mistura obrigatória é de 12%, enquanto regras recentes permitem negociações para concentrações maiores em determinadas condições.
Na América do Sul, países como Colômbia e Peru também utilizam misturas de etanol em diferentes concentrações. O Chile, por sua vez, não possui uma política nacional de mistura obrigatória de etanol na gasolina.
Por enquanto, portanto, a gasolina E32 continua sendo a formulação disponível nos postos brasileiros, e qualquer mudança dependerá da aprovação e regulamentação das propostas em discussão no Congresso.