GOLPE

Salário de R$ 20 mil atrai brasileiros para esquema de tráfico e golpes no exterior

Vítimas relatam que foram enganadas com promessas de altos salários e submetidas a vigilância, ameaças e punições após chegarem ao Sudeste Asiático

Publicado em 24/08/2026 às 09:41
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Cidade de Poipet, no Camboja, abriga vários centros de golpes eletrônicos (Foto/Tuaya/ iStockphoto)

Brasileiros atraídos por promessas de empregos com salários de até US$ 4 mil, cerca de R$ 20 mil, estão entre as vítimas de redes de tráfico humano que mantêm pessoas presas em complexos no Sudeste Asiático e as obrigam a aplicar golpes pela internet. Os relatos apontam que, após chegarem aos supostos locais de trabalho, os trabalhadores tinham os passaportes retidos, eram submetidos a dívidas e enfrentavam ameaças caso se recusassem a participar dos crimes.

A cidade de Poipet, no Camboja, na fronteira com a Tailândia, é apontada como um dos principais polos desse tipo de exploração. Segundo dados do Ministério da Justiça, o Camboja foi o principal destino de brasileiros com casos registrados pelo Protocolo Operativo Padrão de Atendimento em 2025, com 44 dos 84 casos identificados.

As vítimas eram atraídas por anúncios que prometiam salários elevados, jornada definida, folgas e benefícios. Um brasileiro identificado como João, nome fictício, contou que a proposta oferecia US$ 4 mil, 12 horas de trabalho, folga aos domingos e contrato de um ano. Depois da chegada ao país, porém, a realidade era diferente.

Segundo relatos reunidos pela Folha de S.Paulo e por organizações que atuam no combate ao tráfico humano, os brasileiros eram levados para complexos cercados por muros, câmeras e postos de segurança. Os passaportes eram retidos sob a justificativa de regularização do visto de trabalho e, posteriormente, os trabalhadores eram obrigados a assinar contratos que criavam dívidas referentes a despesas como passagem, alimentação e hospedagem.

Quando tentavam deixar o local ou se recusavam a aplicar os golpes, as vítimas relatam que eram ameaçadas e submetidas a punições. Também havia descontos por erros nos golpes, atrasos ou intervalos considerados excessivos, reduzindo ou eliminando o pagamento prometido.

Em alguns casos, os valores cobrados para deixar o trabalho chegavam a milhares de dólares. Um documento apresentado por uma das vítimas listava despesas que somavam US$ 12.439, aproximadamente R$ 64 mil, incluindo transporte, passagem aérea, alimentação, aluguel, internet e outros custos.

A violência também fazia parte da rotina relatada pelos brasileiros. Vítimas ouvidas sob anonimato afirmaram que eram submetidas a vigilância constante e ameaças contra elas e seus familiares. Organizações como a Anistia Internacional e a The Exodus Road também registraram relatos de pessoas obrigadas a aplicar golpes online sob ameaças de violência.

O fenômeno ganhou força no Camboja após o fechamento de diversos cassinos e a proibição das apostas online, em 2019. De acordo com a reportagem, estruturas antes utilizadas pelo setor de jogos passaram a ser aproveitadas por grupos criminosos para manter operações de fraudes virtuais.

As autoridades cambojanas intensificaram as operações contra esses complexos desde julho de 2025, após pressão internacional. No entanto, organizações de direitos humanos questionam a eficácia das ações e apontam casos de vítimas que teriam sido criminalizadas ou deportadas após operações policiais.

Segundo dados do Ministério da Justiça citados na reportagem, o trabalho escravo foi a principal finalidade registrada nos casos de tráfico humano em 2025, com 49 ocorrências. O órgão também ressalta que os números podem estar subnotificados, já que nem todas as vítimas conseguem chegar aos serviços públicos de atendimento.

O governo do Camboja afirma que investiga denúncias de participação ou conivência de autoridades com as redes criminosas e diz manter cooperação com o Brasil para combater os golpes, repatriar cidadãos brasileiros e lidar com casos envolvendo brasileiros detidos no país.

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