Líder foi condenado na Rússia por violação de direitos humanos, abuso sexual e distribuição de drogas, mas fugiu; foi descoberto na Argentina após um parto
A seita russa que usava homens e mulheres para exploração e tráfico sexual, e que foi descoberta nesta semana atuando na Argentina após o parto de mulher de 22 anos em San Carlos de Bariloche, tem antiga e ampla atuação no Brasil.
Em 2015, uma mulher, que seria uma das líderes do grupo, se apresentou como sacerdotisa xamã em Brasília, ministrando uma série de palestras. Ela sumiu após um casal de artistas brasiliense denunciar que se tratava de uma líder de seita criminosa.
Ela comandaria a International Community of Women for Healthy Lifestyle (Daoin), denominada originalmente de Ashram Shambala, fundada por Konstantin Rudnev, o homem detido esta semana em Bariloche e denunciado pela Justiça argentina.
Rudnev e outras 20 pessoas de nacionalidade russa foram denunciadas por integrarem uma organização criminosa “para fins de tráfico sexual e redução à servidão”, informou o Ministério Público da Argentina nesta sexta-feira (4).
A organização “capturou uma jovem de 22 anos trazida da Rússia que, em 21 de março passado, deu à luz a um bebê” em Bariloche, que fica 1.500 km a sudoeste de Buenos Aires, assegurou o MP em comunicado.
Segundo os promotores, o objetivo era registrar o recém-nascido como filho do líder da seita para que ele pudesse adquirir a nacionalidade argentina e depois viajar ao Brasil.
O recrutamento da mulher ocorreu por intermédio “de um espaço espiritual e de prática de ioga de fachada” e “se aproveitou da situação de extrema vulnerabilidade da vítima”, informou o MP em nota oficial.
Os investigadores argentinos chegaram a demais membros da seita após operações nos aeroportos de Bariloche e Buenos Aires.
Em Bariloche, identificaram um grupo de sete russos – um homem e seis mulheres – prontos para embarcar. Algumas das mulheres tinham partes da cabeça sem cabelo e estavam extremamente magras.
Na bagagem dos detidos, os agentes encontraram comprimidos que, ao serem analisados, testaram positivo para cloridrato de cocaína. No estacionamento do aeroporto, outras duas mulheres russas foram presas ao chegarem em uma van.
O líder da seita foi preso no aeroporto de Bariloche. Na ocasião, ele “tentou ferir a si mesmo no pescoço com uma lâmina de barbear que levava em sua carteira, mas foi rapidamente contido pelos oficiais”, segundo comunicado do MP argentino.
O promotor revelou perante o juiz que a organização “autorizava as rações de comida, de compras de diversos produtos e determinava jejuns obrigatórios como forma de punição”.
Dos 21 acusados, 13 permanecem presos e o restante está em liberdade condicional.
Líder fugiu de prisão na Rússia após ser condenado
A seita Ashram Shambala foi criada nos últimos anos da União Soviética, antes de sua dissolução em 1991. Chegou a operar em 18 regiões da Rússia, incluindo Moscou e São Petersburgo.
Seu fundador, Konstantin Rudnev, se formou em engenharia em seu país e mais tarde se juntou ao Exército Vermelho, onde propôs fundar um mosteiro semelhante ao de Shaolin, instituição conhecida como o berço do Shaolin Kung Fu e do Budismo Chan.
Em 1989, o jovem Rudnev criou a Shabdala Ashram, na Sibéria. No início, ele se autodenominava “guru Sotidanandana”. Depois, afirmou que um sábio do Tibete era seu professor. Mais tarde passou a dizer ser um extraterrestre.
Rudnev foi preso em 2009, mas escapou de um hospital neuropsiquiátrico onde estava internado sob ordem judicial. Em 2005, ele foi preso novamente. Acabou solto por falta de provas.
Mas, em outubro de 2010, ele foi preso após uma operação da polícia russa. Com mandados, agentes invadiram imóveis ligados à seita, onde apreenderam material audiovisual dos rituais e grande quantidade de heroína.
Investigadores encontraram vídeos de seguidores da Ashram Shambala sendo violentados sexualmente. Muitos integrantes da seita perderam dinheiro e bens, e abandonaram parentes e amigos. Alguns foram dados como desaparecidos.
Na época, as autoridades russas estimaram que a Ashram Shambala tinha 30 mil seguidores, até a prisão do seu líder. Dezesseis deles foram testemunhas de acusação no julgamento.
Em agosto de 2013, o Tribunal de Novosibirsk condenou o líder do Ashram Shambhala a 11 anos de prisão por violação de direitos humanos, abuso sexual e distribuição de drogas ilícitas.
Rudnev foi mandado para uma colônia de segurança máxima. No entanto, a seita continuou seu trabalho clandestinamente. Rudnev fugiu da prisão e foi para Montenegro, onde era procurado pelas autoridades desde outubro de 2024.
Desde a sua prisão do fundador, as outras lideranças da seita migraram para outros países, incluindo o Brasil e Argentina, onde ganharam milhares de adeptos, até Rudnev ser preso na Argentina, após o parto da jovem russa, que seria vítima da seita.
Moradores de Brasília foram escravizados pela seita na Rússia
Em 2015, um artista plástico, então com 35 anos, e a mulher dele, que tinha 37, divulgaram, por meio de um grupo fechado em uma rede social, um relato alertando amigos contra a sacerdotisa xamã que se identifica como Mahasidda Nayada.
Ela esteve em Brasília, duas semanas antes, ministrando palestras. Segundo o casal, Nayada era uma das três líderes da Daoin, que teria ligações com o grupo denominado originalmente de Ashram Shambala, fundado por Konstantin Rudnev.
Ambos deram entrevista ao Correio Braziliense. O jornal da capital do país ouviu uma terceira pessoa, servidora pública, também moradora de Brasília, que reforçou a ligação entre Nayada e esse grupo.
Ambos foram alunos e trabalharam para a organização entre 2006 e 2011. Na entrevista ao Correio, afirmaram que Nayada era o braço direito de uma seita que manipula ensinamentos sobre xamanismo, ioga, meditação, tantra.
Após saber que ela iria a Brasília, o casal protocolou denúncia no Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). Além disso, reuniu, em um dossiê, informações publicadas em sites internacionais sobre a atuação do grupo, e procurou a Polícia Federal, mas não houve abertura de investigação.
Depois que Konstantin foi preso, em 2009, Nayada e outras duas mulheres permaneceram devotas dele. “Ele é tratado como Jesus Cristo, um homem injustiçado. A Nayada tem a missão de espalhar essa organização, que funciona como uma estrutura piramidal”, disse o brasiliense na entrevista ao Correio.
O artista e a mulher dele disseram ter abandonado o grupo quando perceberam que muitas das informações repassadas eram “fraudulentas” e que eles “eram explorados pela organização”. Segundo o casal, nomes, história pessoal, formação dela, “tudo é falso”.
Ainda de acordo com ambos, a xamã que esteve em Brasília usava outros nomes, como Meisterin Nayada, Anna Dar e Anna Give. Ela seria de origem ucraniana e se chamaria Maksimova Natalia Sergeevna, afirmaram os brasilienses.
O uso de diversos nomes seria justificado por uma ascensão espiritual. “Nosso intuito não é nem acusar. Achamos, inclusive, que Nayada é uma vítima. Mas queremos alertar para que outras pessoas não percam anos da vida, como nós perdemos. Como toda seita, eles fazem uma lavagem cerebral”, alertou o artista brasiliense.
Ele foi para a Rússia fazer o curso proposto pela organização no segundo semestre de 2005. A mulher dele, natural de Barcelona (Espanha), desembarcou em Moscou um semestre depois, em 2006, com o mesmo intuito. Durante o processo, o casal foi convencido de que, para evoluir no caminho espiritual, deveria ficar separado.
Por dois anos, seguiram a filosofia do grupo em “buscar a superioridade espiritual e se afastar da família biológica”. Se não recrutassem novos seguidores, ficavam sem comida ou eram acordados de madrugada fazendo séries de flexões. Sofreram abusos sexuais de gurus e mestres.
Só para entrar no seminário, era preciso pagar 3 mil euros (cerca de R$ 18 mil na cotação atual). “A organização funciona como uma pirâmide, onde os que estão no topo têm braços para fazer o esquema funcionar. Eles convencem as pessoas pelo emocional e a cobrança é tanta que quem se dedica menos é considerado pouco espiritual ou capacitado”, detalhou o artista brasiliense.
Outra moradora de Brasília, servidora pública e então com 50 anos, endossou os relatos do casaç. Ela contou ter integrado a Ashram Shambala entre 2002 e 2011.
“Saí após a prisão do líder, um dos representantes dele no Brasil reuniu um grupo e afirmou que todas as acusações eram verdade. Ouvindo os relatos de outras pessoas e o conteúdo dos testemunhos contra o líder, percebi que havia sido enganada”, comentou.
A mulher disse que, até 2011, quase todo o seu “bom salário” era destinado às viagens, aos encontros e outras atividades ligadas à seita. “Fui muito para a Rússia. Só não permaneci lá, virei quase uma prisioneira, porque não dependia financeiramente da seita. Mas vi muito jovem seguidor passar frio e fome por causa dela.”
A servidora pública afirmou ainda ter conhecido na Ashram Shambala a mulher que hoje se identifica como Mahasidda Nayada. “Ela era uma sacerdotista. Creio que ela também é uma vítima, uma das jovens exploradas. Acredito que ela só não passou fome porque era muito bela e dominava todas as técnicas sedutoras da seita.”
Fonte: O Tempo.