Um composto experimental derivado de medicamentos usados no tratamento do HIV apresentou resultados promissores contra danos neurológicos causados pela esclerose múltipla. Em testes com camundongos, a substância foi capaz de reverter quadros de paralisia e perda de visão, segundo estudo publicado na revista científica Science Translational Medicine.
O composto, chamado Kamuvudina K-9, foi desenvolvido por Jayakrishna Ambati, pesquisador da UVA Health, nos Estados Unidos. A substância deriva de uma classe de medicamentos antirretrovirais já aprovada para uso humano, mas ainda está em fase experimental para o tratamento da esclerose múltipla.
Nos testes, os pesquisadores observaram preservação das fibras nervosas e da mielina, camada protetora que reveste os nervos e é danificada pela doença. O tratamento também impediu o aumento dos níveis da cadeia leve de neurofilamento (NfL), biomarcador sanguíneo utilizado para identificar lesões nas células nervosas.
Segundo o estudo, os animais tratados com um medicamento já aprovado para esclerose múltipla não apresentaram a mesma recuperação funcional observada entre aqueles que receberam a Kamuvudina K-9.
Antirretrovirais e risco de esclerose múltipla
Além dos experimentos em animais, a equipe analisou dados de seguros de saúde de mais de 3 milhões de pessoas. Os pesquisadores identificaram uma associação entre o uso de inibidores nucleosídeos da transcriptase reversa (INTRs), classe de antirretrovirais da qual deriva o composto experimental, e uma redução de 41% no risco de desenvolver esclerose múltipla.
O resultado, porém, não comprova que esses medicamentos previnam a doença. A associação identificada precisa ser investigada em novos estudos para que seja possível compreender melhor a relação entre o uso dos antirretrovirais e o risco de desenvolver a condição.
O que é esclerose múltipla
A esclerose múltipla é uma doença crônica do sistema nervoso central em que o sistema imunológico ataca a mielina, estrutura responsável por proteger as fibras nervosas e facilitar a transmissão dos impulsos elétricos.
A condição pode provocar sintomas como alterações na visão, fraqueza muscular, dificuldades de equilíbrio, formigamento e problemas de coordenação. A intensidade e a evolução variam de pessoa para pessoa.
Os tratamentos disponíveis buscam principalmente controlar a atividade inflamatória da doença e reduzir a ocorrência de surtos e a progressão das lesões. A possibilidade de recuperar funções neurológicas já comprometidas é um dos desafios da pesquisa.
Apesar dos resultados iniciais, a Kamuvudina K-9 ainda precisa passar por estudos adicionais para avaliar sua segurança e eficácia em seres humanos. Os resultados em camundongos não significam que o composto já possa ser utilizado como tratamento clínico para esclerose múltipla.