CUIDADOS

Parar de tomar Ozempic pode aumentar risco de infarto e AVC, revela estudo

Levantamento com mais de 333 mil pacientes indica que a proteção ao coração se perde rapidamente após a interrupção dos remédios da classe GLP-1

Publicado em 21/09/2026 às 16:59
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Suspender o uso de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro pode aumentar de forma expressiva as chances de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e morte. É o que aponta um estudo publicado neste ano na revista científica BMJ Medicine.

De acordo com a pesquisa, pacientes com diabetes tipo 2 que ficaram dois anos sem o tratamento chegaram a apresentar risco 22% maior de eventos cardiovasculares graves na comparação com quem manteve o uso contínuo dos chamados medicamentos GLP-1.

O trabalho foi conduzido por cientistas da Escola de Medicina da Universidade Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, e acompanhou mais de 333 mil veteranos norte-americanos com diabetes tipo 2 durante três anos. Segundo os resultados, os benefícios acumulados no período de uso podem se dissipar em pouco tempo depois que o remédio é abandonado.

A classe GLP-1 inclui a semaglutida, presente no Ozempic e no Wegovy, e a tirzepatida, encontrada no Mounjaro e no Zepbound. Esses medicamentos já eram reconhecidos pela ciência por seus efeitos de proteção ao coração. A novidade trazida pelo estudo é que esse escudo não permanece quando o tratamento é interrompido.

O grupo de comparação foi formado por 201.136 pacientes que usavam sulfonilureias, outra classe de remédios indicada para o diabetes. Os participantes passaram por reavaliações a cada seis meses. No período analisado, 26% dos usuários de GLP-1 abandonaram completamente o tratamento e outros 23% fizeram pausas de pelo menos seis meses antes de retomar.

Os pesquisadores encontraram uma ligação direta entre o tempo de uso ininterrupto e o nível de proteção obtida. Entre os 132.551 pacientes que seguiram o tratamento durante os três anos completos, o risco de eventos cardiovasculares graves foi 18% menor do que o registrado no grupo das sulfonilureias, o equivalente a cerca de quatro casos graves a menos a cada 100 pacientes no período.

Quem ficou dois anos e meio em tratamento antes de parar teve redução de 15% no risco. Já os que permaneceram dois anos alcançaram queda de 7%. Os pacientes que interromperam antes de completar 18 meses não apresentaram redução significativa em relação ao grupo que usava sulfonilureias.

A perda de proteção foi maior à medida que o tempo sem o remédio avançava. Um ano sem retomar o tratamento já elevava o risco cardiovascular em 14% em comparação ao uso contínuo. Depois de dois anos de interrupção, o aumento chegou a 22%.

As pausas temporárias também comprometeram os resultados, mesmo quando havia retorno posterior. Enquanto o uso contínuo por três anos gerava redução de risco de 18%, quem parou e voltou obteve queda média de 12%. Uma interrupção de seis meses, ainda que seguida de reinício, foi ligada a um aumento de 4% a 8% no risco.

"Há um enorme entusiasmo em começar a usar os medicamentos GLP-1, mas não há atenção suficiente ao que acontece quando as pessoas param", afirmou o pesquisador sênior Ziyad Al-Aly, médico e epidemiologista clínico da Universidade Washington, em comunicado. Segundo ele, muitos abandonam o remédio após alguns meses por causa do custo, dos efeitos colaterais ou da falta de estoque. "Quando param, não é só o peso que volta, eles experimentam um ressurgimento da inflamação, da pressão arterial e do colesterol. O reganho de peso é visível, a reversão metabólica, não", acrescentou o médico, que também é chefe do Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento do VA Saint Louis Health Care System.

O especialista comparou o processo a uma espécie de efeito chicote metabólico, com consequências duradouras. "Nossos dados sugerem que esse efeito chicote metabólico é prejudicial à saúde do coração", explicou. "Retomar o medicamento ajudou a restaurar parte da proteção, mas apenas parcialmente, mostrando que a interrupção deixa uma cicatriz duradoura."

Al-Aly defendeu que médicos e serviços de saúde encarem a continuidade do tratamento com GLP-1 como uma prioridade clínica. Para ele, os sistemas de saúde precisam de estratégias para ajudar os pacientes a manter o uso por tempo indefinido, já que os remédios tratam condições crônicas, com manejo dos efeitos colaterais e diálogo aberto sobre o caráter de longo prazo da terapia.

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