Um novo medicamento aprovado nos Estados Unidos amplia as opções de tratamento para um grupo específico de pacientes com câncer de pâncreas metastático. O daraxonrasib, comercializado como Rasonque, recebeu autorização da Food and Drug Administration (FDA) na quarta-feira (26) para adultos com adenocarcinoma pancreático metastático que já receberam pelo menos uma terapia sistêmica ou que não são candidatos a tratamentos sistêmicos combinados.
A aprovação foi baseada nos resultados do estudo clínico de fase 3 RASolute 302, que acompanhou 500 pacientes. De acordo com a FDA, a sobrevida global mediana foi de 13,2 meses entre os pacientes tratados com daraxonrasib, contra 6,7 meses entre aqueles que receberam quimioterapia. O resultado representa uma redução de aproximadamente 60% no risco de morte.
O estudo também apontou aumento no período em que a doença permaneceu sem progressão. A sobrevida livre de progressão mediana foi de 7,2 meses com o novo medicamento, contra 3,6 meses com a quimioterapia. A taxa de resposta objetiva também foi maior no grupo tratado com daraxonrasib: 30%, contra 11%.
Para o oncologista Raul Dutra, de Uberaba, os resultados mostram a importância da realização de estudos clínicos antes da liberação de uma nova terapia. Em entrevista ao Pingo do J, da Rádio JM, ele explicou que o medicamento passou pelas diferentes etapas de pesquisa até chegar à aprovação. “Esse foi um trabalho bem robusto, um trabalho que foi feito com todas as fases, fase 1, fase 2, fase 3. E aí ele foi validado”, explica.
O daraxonrasib atua sobre a proteína RAS, envolvida em mecanismos relacionados ao crescimento e à multiplicação das células. A terapia foi desenvolvida para atingir uma alteração específica dessa via molecular presente em determinados tumores.
A indicação aprovada pela FDA, no entanto, é direcionada a um grupo específico de pacientes. Portanto, o resultado do estudo não significa que o medicamento possa ser utilizado por todas as pessoas diagnosticadas com câncer de pâncreas. O câncer de pâncreas está entre os tumores que apresentam maior dificuldade de tratamento, principalmente quando diagnosticado em estágio avançado. No caso da aprovação do daraxonrasib, trata-se de pacientes com doença metastática que já passaram por tratamento sistêmico ou que não são candidatos às combinações previstas na indicação.
Apesar da aprovação nos Estados Unidos, o daraxonrasib ainda não está disponível para uso regular no Brasil. Para ser comercializado no país, o medicamento precisa passar pelo processo de avaliação e registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Segundo Raul Dutra, a indústria responsável pelo medicamento deverá apresentar o produto à agência brasileira para que sejam avaliados os dados de eficácia, segurança e demais requisitos regulatórios. “Agora a gente tem que esperar a indústria que comercializa ele nos Estados Unidos. Eles vão submeter isso pela Anvisa. Então, demora um tempo ainda para ele estar disponível aqui no Brasil”, afirma.
A FDA informou que a aprovação ocorreu por meio do Project Orbis, iniciativa que permite a colaboração entre agências reguladoras na análise de determinados medicamentos oncológicos. No caso do daraxonrasib, a agência norte-americana trabalhou em conjunto com autoridades do Canadá. Reguladores da Europa e do Japão participaram como observadores.
A participação no Project Orbis, porém, não significa que o medicamento esteja automaticamente aprovado nos demais países. Cada agência mantém seu próprio processo regulatório.
Embora os resultados tenham mostrado ganho importante de sobrevida, o daraxonrasib não representa uma cura para o câncer de pâncreas. O benefício demonstrado no estudo está relacionado principalmente ao aumento do tempo de vida e ao controle da doença em pacientes que atendem aos critérios da pesquisa e da indicação aprovada. “Ele aumenta a sobrevida, dobra a sobrevida”, disse Raul Dutra.
O oncologista ressalta que a resposta ao tratamento pode variar de acordo com as características de cada paciente e do próprio tumor. Por isso, a aprovação de uma nova terapia não significa que ela seja adequada para todos os casos.
Para Raul, porém, resultados como os apresentados pelo estudo ajudam a ampliar o conhecimento sobre os mecanismos envolvidos no desenvolvimento dos tumores e podem abrir caminho para novas estratégias de tratamento.
O especialista também citou pesquisas envolvendo vacinas contra o câncer e tecnologias baseadas em RNA como áreas que vêm sendo estudadas. Ele pondera, entretanto, que essas alternativas ainda estão em desenvolvimento e não devem ser apresentadas como tratamentos disponíveis capazes de curar a doença. “Eu acho que está no caminho, não é algo para um, dois anos, mas acho que é um caminho que, graças a Deus, estamos no caminho certo”, afirma.
A aprovação do daraxonrasib pela FDA representa, portanto, uma nova alternativa para um grupo específico de pacientes com câncer de pâncreas metastático. No Brasil, a utilização regular do medicamento ainda depende da avaliação e de eventual aprovação pela Anvisa.