Rodrigo Silveira destaca que compreender o passado é importante, mas o amadurecimento emocional passa pela responsabilização do próprio indivíduo
A culpa é sempre da mãe? Em entrevista à Rádio JM, o psicanalista Rodrigo Silveira defende o autoconhecimento como ferramenta fundamental ao desenvolvimento humano. Para ele, compreender o passado faz parte da jornada, mas pondera que não se pode reduzir os conflitos da vida adulta à culpabilização dos pais, especialmente das mães. Nesse sentido, impera compreender que cada qual tem a própria jornada e carrega consigo a própria parcela como consequências das ações.
“Muito mais do que atribuir a culpa, ou falar que há um culpado para aquilo que a gente via manifestar como falta, ingerência ou dificuldade na vida adulta, é também entender que esses pais, esses responsáveis, eram indivíduos, também estavam buscando fazer aquilo que eles entendiam que era bom”, pontua Silveira.
Segundo o especialista, experiências vividas na infância, especialmente no ambiente familiar, exercem influência direta sobre como o indivíduo lida com frustrações, limites e dificuldades ao longo da vida. No entanto, ele ressalta que esse impacto não deve ser interpretado de maneira simplista.
“Numa análise madura vamos abordar isso: por mais que você atribua essa culpa, que tenha uma relação, sim, que nossos pais nos afetam, afetam como vamos nos desenvolver, é mais também sobre aprender a se responsabilizar. Traduzir isso de uma forma que você se implique no próprio processo e que esse processo ressignifique na sua jornada de vida”, analisa.
Pontuando que a culpabilização da mãe pode ter raízes ainda mais primordiais, Rodrigo Silveira destaca que a frustração nasce com o bebê. “Se a gente pega a Teoria da Psicanálise, a principal falta que temos é justamente a do útero. Então o principal trauma que temos é que somos 'expulsos do paraíso', porque lá temos comida, bebida, não temos preocupações, não temos boletos, e tudo é mais fácil. Uma vez expulso do paraíso, você quer voltar para aquele lugar que lhe foi tirado, que era seu. Essa é a primeira frustração que temos”, considera.
De acordo com ele, dificuldades em lidar com frustrações podem se manifestar de diversas formas, como procrastinação, compulsões e até dependências. A busca por compensações emocionais, segundo o especialista, funciona como uma tentativa de preencher sensações de inadequação ou falta.
“Quando não conseguimos lidar com o que é difícil ou frustrante, buscamos subterfúgios. É nesse movimento que surgem muitas vezes os vícios e comportamentos compulsivos”, observa.
O especialista ressalta que identificar a origem desses padrões é um passo fundamental para o autoconhecimento e para a ressignificação da própria trajetória emocional.