O contrato foi cumprido por 22 meses, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, e terminou com o pagamento de quase R$ 80 milhões do Master

Viviane e Alexandre de Moraes (Foto/Divulgação)
O contrato com o Banco Master rendeu ao escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, cerca de R$ 5 mil por hora corrida. A instituição financeira já liquidada, comandada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, é investigada por uma das maiores fraudes financeiras do país.
O cálculo foi feito a partir do valor total previsto no negócio, de R$ 129 milhões por três anos. O contrato previa pagamento mensal de R$ 3,6 milhões e foi cumprido por 22 meses, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, quando o Master foi liquidado pelo Banco Central (BC). Pelo período cumprido, o pagamento efetuado foi de quase R$ 80 milhões.
A média do valor por hora corrida foi feita a partir da divisão do valor pago e do período cumprido. Levando em consideração uma jornada de 44 horas semanais, daria cerca de R$ 20 mil por hora.
O valor mensal de R$ 3,6 milhões contrasta mais ainda com a renda média dos trabalhadores brasileiros, que é de R$ 3.652 por mês, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em janeiro de 2026.
Esse valor de R$ 5 mil por hora daria, por exemplo, para comprar mais de cinco cestas básicas em São Paulo, com base no valor da cesta de R$ 852,87 calculada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Em outra comparação, em um dia, o escritório poderia comprar um carro no valor de R$ 120 mil. Em um mês, é possível ter na garagem um modelo de marcas como Porsche, Ferrari, Lamborghini ou Mercedes. Ou comprar cerca de 50 carros populares novos, ao custo aproximado de R$ 70 mil cada. Também daria para comprar um iPhone16, um dos últimos lançamentos, a cada hora.
Ainda com o valor de um mês de contrato, uma mansão na Barra da Tijuca, bairro nobre no Rio de Janeiro, ou na região dos Jardins, em São Paulo. Com o dinheiro recebido no contrato, daria para adquirir a maior cobertura de luxo do Rio de Janeiro, localizada na Praia do Flamengo, na Zona Sul, estimada em R$ 65 milhões.
Advogados veem valor acima do mercado
“É um valor bastante elevado”, avaliou o advogado Bernardo Coelho, sócio de um escritório em Belo Horizonte (MG), observando que especificações podem influenciar o valor de contratos jurídicos.
Segundo ele, ao definir o preço cobrado por um serviço, os advogados levam em conta “a quantidade de trabalho, a capacidade financeira do cliente, a experiência e o reconhecimento do escritório, o valor da causa envolvida no contrato”, entre outros. “Alguns advogados ganham R$ 1.500 por mês. Outros ganham alguns milhões de reais por mês. A variação em nosso mercado é muito absurda”, complementou.
Outros advogados ouvidos pela reportagem reservadamente concordaram que o valor pode variar e que a influência do escritório, assim como de seus sócios, tem grande impacto nessa definição.
Um profissional da área avaliou à reportagem que, apesar do nome, Viviane Barci não atua diretamente em nenhum processo, o que contribui com o questionamento do valor. Além disso, classificou as explicações prestadas sobre o contrato genéricas, citando que um escritório de referência em direito civil em São Paulo não cobra mais do que R$ 300 mil em um parecer jurídico.
O advogado, que prefere não ser identificado, ressaltou que o número de ações previstas no contrato também pode inflar o valor e observou que o montante mensal pode ser ser atribuído a imoral, mas não ilegal porque não há norma que limita o pagamento de honorários advocatícios.
O escritório de Barci de Moraes Advocados Associados publicou nota na última segunda-feira (9/3) explicando os serviços prestados com o banco de Vorcaro. De acordo com a publicação, foram:
* 15 advogados do escritório envolvidos no contrato;
* 3 outros escritórios de consultoria contratados;
* 94 reuniões de trabalho ao todo;
* 79 reuniões presenciais na sede do Banco Master;
* 13 reuniões com a presidência do banco;
* 2 reuniões por videoconferência com o jurídico da instituição;
* 36 pareceres e opiniões legais produzidos sobre temas diversos.
O nome de Viviane entrou em debate após a revelação do contrato e motivou pressões políticas para investigação do ministro do STF, que nega irregularidades. Já Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal (PF) no último dia 4, na 3ª fase da operação Compliance Zero.
Detalhes do contrato vieram à tona com mensagens em celular
A nota divulgada nesta semana foi a primeira manifestação do escritório Barci de Moraes desde que o contrato com o Banco Master veio a público. No comunicado, o escritório, que também tem dois filhos do casal como sócios, afirmou que nunca atuou em processos do banco no STF.
A manifestação aconteceu após a divulgação de mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, na semana passada, que mostram supostas conversas com o ministro Alexandre de Moraes, além de diálogos com Viviane Barci.
Em nota, o magistrado negou as mensagens atribuídas a ele. Segundo Moraes, “análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, tornados públicos pela CPMI do INSS (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que apura a fraude no Instituto Nacional do Seguro Social), constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos”.
De acordo com as investigações da PF, além do suposto esquema bilionário de fraudes financeiras, o banqueiro Daniel Vorcaro comandava uma organização criminosa ligada a corrupção, lavagem de dinheiro, invasão de dispositivos informáticos de autoridades e ameaças. A defesa dele nega as acusações.
Fonte: O Tempo