A tragédia registrada em Itumbiara, que resultou na morte de duas crianças e do próprio pai, provocou forte comoção e levantou questionamentos sobre os fatores psicológicos que podem levar alguém a cometer um ato extremo no ambiente familiar. Em entrevista ao programa Pingo do J, a psicóloga psicanalista Ilcéa Borba Marquez explicou que o caso pode ser compreendido como uma agressividade vicária.
Entenda o caso: Confirmada a morte do segundo filho de secretário de Itumbiara; menino foi baleado pelo pai
Segundo a especialista, esse tipo de comportamento ocorre quando a pessoa direciona a violência a alguém próximo visando ferir emocionalmente um terceiro. “É quando você agride ou faz algo que, na verdade, quer atingir outra pessoa, que não é o alvo direto da agressão”, afirma. Nesses casos, o ato violento funciona como forma de punição ou vingança simbólica, geralmente associado a sentimentos intensos de rejeição, perda, humilhação ou desejo de controle.
A psicóloga ressalta que situações de ruptura conjugal podem despertar emoções contraditórias, como amor, frustração e ódio, mas que a incapacidade de elaborar essas emoções de forma saudável pode levar a fantasias destrutivas. “O ódio destrói, enquanto o amor preserva. Quando há intenção de causar sofrimento, já não estamos falando de um vínculo afetivo, mas de uma dinâmica marcada por ressentimento e necessidade de retaliação”, explica.
Conforme Ilcéa, em quadros assim, é comum a construção de narrativas internas distorcidas, nas quais o agressor tenta justificar a própria atitude. Esses pensamentos, muitas vezes alimentados por ideias de posse, honra ou rejeição, não surgem de forma repentina, mas se desenvolvem ao longo do tempo, associados a dificuldades emocionais profundas e à incapacidade de lidar com frustrações.
Para a especialista, compreender o fenômeno não significa justificar a violência, mas reforçar a importância de olhar para a saúde mental, especialmente em momentos de crise pessoal, separações ou perdas significativas. “São situações em que a pessoa precisa de escuta e acompanhamento antes que pensamentos destrutivos ganhem força”, pontua.
A especialista reforça que buscar ajuda psicológica em momentos de crise não deve ser visto como sinal de fraqueza, mas como uma forma de proteção. “Todos nós atravessamos situações de ruptura e sofrimento. O que faz a diferença é ter espaço para falar, ser escutado e ressignificar essas emoções antes que elas tomem um caminho trágico”, conclui.